quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Conto Premiado

Este é o conto que foi selecionado entre os 7 melhores pelo Concurso Literário Yoshio Takemoto (Associação Cultural e Literária Nikkei Bungaku do Brasil [São Paulo]) e foi publicado na revista da citada instituição. 
 
Amigo mais que imaginário

Eram só os fundos de uma sapataria no bairro pobre de Munique, mas o suficiente pedaço do céu para a família que ali vivia. No pequeno quintal, cabiam exércitos de soldados de chumbo e vastos campos de batalha, com lagos, montes, florestas que eram os canteiros de margaridas.

Ao contrário das lutas sem fim que eram travadas às tardes naquele pedaço de terreno, os habitantes daquela terra de faz de conta, em plena Alemanha nazista, eram felizes de mais para nos preocuparmos com guerra. A vida era humilde, mas não faltava comida nem amor.

Adolf orgulhava-se do que para ele não era a pequena, mas a loja do papai. Não cansava de repetir na escola, para todos nós, que seu pai vendia os melhores sapatos germânicos, pois as pessoas saiam de lá calçadas em algo mais que sapatos. Essa afirmação vinha do jantar. Quando todos sentávamos à mesa para comer e o pai relatava as experiências do dia. Como luteranos convictos, todos naquela casa críamos que nos relacionarmos com outra pessoa era uma oportunidade que Deus criava para que os que conheciam a fonte da vida, compartilhassem dela, assim, todos que cruzavam os portais da loja em busca de um sapato, saiam calçados com a perspectiva de um novo caminho.

A vida parecia perfeita, até o mundo desabar com tudo sobre os Müller. Bárbara Müller caiu de cama, com uma doença rara, mal tinha forças para abrir os olhos. Embora as irmãs do estudo bíblico revezassem-se nas tarefas da casa, o Sr. Ernest não abria mais sua loja e ficava dia e noite junto da esposa. No fundo, seu coração sabia que não teria muito tempo ao lado dela. Adolf e eu íamos à escola e às tardes, às vezes, brincávamos de estratégia, mas não tinha mais graça.

Depois de alguns meses Deus chamou Bárbara. Foi assim que Ernest disse a seu filho único na cozinha, entregando uma caneca com chá. Adolf ficou triste por a mãe ter mudado de endereço sozinha e, também, como faria se tivesse um pesadelo à noite, ou pra quem contaria que tirara 10 em Matemática? Quem estaria em casa fitando pela janela enquanto brincávamos no quintal? Parece egoísmo, mas é assim que as crianças sentem saudades. Tentamos explicar com questões práticas o que se passa no campo dos sentimentos, o verdadeiro campo de batalhas. Um dia poderíamos aprender a sentir as coisas de um jeito diferente. Apesar de tudo, nós dois sabíamos que morar com Deus era a melhor opção e, assim, ele não ficou desesperado.

Porém, para Ernest a tristeza foi muito mais forte do que qualquer outra, pois ele era adulto e, além do mais, a tristeza destaca-se mais em pessoas radiantes. Como as margaridas que murcharam no jardim, ele passava a maior parte do tempo cabisbaixo e sem falar. Só voltou a abrir a loja quando a comida foi embora dos armários.

Estávamos em 1932, a Grande Depressão era a maior realidade na vida de Ernest Müller. Quase não efetuava vendas e por isso falava menos ainda, passava o dia todo atrás do balcão, agora empoeirado e cor de betume, olhos no vazio. Esquecia-se muitas vezes que o dia havia terminado e que era hora de dormir. Adolf e eu brincávamos e nos virávamos na cozinha, que cada dia ficava maior.

Quanto mais o tempo passava mais difícil as coisas tornavam-se. Alguns anos passaram-se, Adolf e eu entramos para a Juventude Hitlerista e o pai encontrava alento na caridade. Como não havia muito o que compartilhar, então não havia muito alento também. No entanto, sua proximidade com pessoas suspeitas, denominadas judeus, rendiam muito. Rendiam desconfiança do Partido Nazista. Nossa casa fora revirada algumas vezes por conta disso. O pai, sempre irredutível, parecia querer nos dizer que aquele que perde sua vida na verdade a ganha. Hoje entendo o porquê de Adolf frequentar a Juventude Hitlerista, era mais por proteção pessoal do que por ideologia.

Contudo, numa das revistas algo diferente aconteceu, fomos impedidos de assistir à ação dos camisas–pardas, do lado de fora só escutávamos os poucos móveis e objetos serem revirados. Não desconfiamos que era o pretexto para se plantar provas falsas na casa. Um pedaço de papel, ao qual os soldados chamavam documento, comprovava o parentesco dos Müller com os judeus. Um falso testamento. Nós só conhecíamos o Novo e o Antigo.

A herança não tardou a chegar, uma semana depois. Nova revista. Duas folhas malditas eram prova suficiente para sermos presos. Nosso crime: sermos judeus. Espere aí! Não éramos judeus.

Não importava, fomos arrancados do que sobrara de um lar feliz e fomos transportados ao inferno do Führer, mas não podia dizer isso a Adolf. Depois de separado do pai, eu deveria dar-lhe segurança.

Então virei adulto, ainda que, em corpo de criança. Isso não é estranho para um amigo imaginário. A cabeça de Adolf estava ocupada de mais com seus medos para reparar na minha mudança. Aliás, sua cabeça foi o primeiro alvo dos nazistas. A cortina negra de cabelos que cobriam sua testa, que a sua mamãe, com carinho, chamava de franjinha linda, foi tosquiada, assim como os cabelos de todo o rebanho, ou melhor, todas as ovelhas, não, quero dizer todos os judeus.

Em seguida, todos, de forma constrangedora, foram obrigados a tirarem suas roupas. O fato de só homens estarem ali, não amenizou a vergonha, nem a humilhação. Muitos gritos, muitas chicotadas cortando paredes e corpos obrigaram todos a se despirem, entregarem suas roupas. Nunca houve um outubro tão gelado na Alemanha, no entanto os corpos tremiam também por outras razões. Logo uma mangueira enorme começou a atirar jatos de água na massa humana que se formou no canto do galpão. A pele anestesiada pelo inverno impediu que as rajadas de água fria doessem muito nos corpos, mas não impediu que doessem na alma.

Depois do banho e uma pulverizada de um pó branco, foram entregues roupas mais largas que os corpos, suas estampas lembravam grades. E fomos todos levados para um imenso quarto, com muitas camas duras e frias. Algumas pareciam caixas onde cada pessoa se recolhia. Foi só no silêncio que se instaurou após todos estarem aparentemente acomodados, que os olhos de Adolf se entregaram às lágrimas que aprisionou durante todo o dia. Chorava baixinho e eu o abraçava sem dizer palavra, pois eu também tinha medo, mas não tinha o luxo de derramar lágrimas.

Com pena de Adolf, um senhor da cama de cima, desceu na tentativa de consolá-lo, não em que ele estivesse em situação melhor, mas como era adulto se sentiu obrigado a fazê-lo. Tentou algumas palavras, mas ao fim, como eu, só o abraçou. Há certos momentos que a pele diz palavras mais sábias que quaisquer línguas. Era uma pena que eu não podia receber um abraço que me desse segurança também, pois eu sequer podia ser visto pelos adultos.

Acho que ninguém dormiu ali naquela noite, por isso a manhã demorou a chegar. Na verdade só sabíamos que era dia, por ser menos escuro que a noite, pois ali tudo eram trevas. Não demoraram a nos colocar para trabalhar: queriam a construção de um novo alojamento. A fome tornava essa tarefa mais difícil, por isso eu deveria agradecer por não senti-la. Todos estavam sem forças, mas o medo da violência dos soldados fazia a pouca energia que sobrava trabalhar o dia todo. Marx era uma homem alto, magro, nariz pontudo. Era simpático e demonstrava pena e cuidado com Adolf. Algumas vezes contou bonitas histórias sobre o povo de Israel até Adolf dormir. Ora eram aventuras no Egito, ora roupas mágicas que nunca estragavam, ora era pão que descia fresquinho do céu.

Marx sempre dizia que quando construíssemos o novo alojamento seriamos soltos e voltaríamos para a Terra Prometida, acho que esse era o nome de sua cidade. Isso diminuía as perguntas de Adolf sobre o pai e também fazia com que trabalhasse mais na obra. Eu também acreditava nisso e encorajava meu amigo a se esforçar mais. Durante algumas vezes Adolf reclamou comigo sobre o porquê de meu trabalho carregando blocos não aumentar sua pilha. Acho que a dureza daquele lugar estava esmagando seu ingênuo coração. Temi que deixasse de me ver.  Contudo, no seu subconsciente eu era a sua versão de segurança. Na sua vida se teve momento que estive ao seu lado, era na hora de brincar ou na hora do perigo. Esse era um desses momentos.

Quando o telhado da casa do Führer estivesse terminado, seríamos libertos. A vontade de sair correndo com os braços abertos até nossa casa era nosso sonho de pássaro. Não sabíamos que o sonho era a última coisa que possuíamos. Só comecei a entender tudo quando o gás foi espalhando-se na câmara. No entanto, fiquei firme, fi-lo acreditar que estávamos todos ali, naquela sala pequena, para outro banho. Marx havia ficado de fora, com outro grupo e, apesar do olhar no chão, não me desmentiu em nenhum gesto.

Faltava pouco para a liberdade, mas não falo de liberdade das grades ou das cercas, mas sim da liberdade da alma. A sua prisão é o corpo, contudo um dia o corpo e a alma se cansam de viver juntos e separam-se. Para Adolf foi a alma que quis romper com o corpo, ainda muito jovem para desejar o mesmo. À medida que devagarzinho ela ia perdendo os sentidos e deixando o físico, eu fazia força para ainda não desaparecer, queria estar com ele até o momento final, queria motivá-lo a não desistir, todavia minhas últimas palavras foram: você está livre, meu amigo!

Os olhos fecharam se para sempre. Eu desapareci. Adolf jamais precisaria de mim novamente.
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